Arroz Preto de Molho: Posso Cozinhar na Mesma Água?

Vanessa Gaudiano — Nutricionista (CRN-8 16541) e Fitoterapeuta Clínica, Especialista em Saúde da Mulher e Nutrição Funcional.

Minha amiga, hoje eu quero te ensinar uma coisa muito simples que você pode fazer quando for preparar arroz preto.

Sabe aquela água que começa a ficar roxinha quando colocamos o arroz preto de molho?

Muita gente olha para aquela água e pensa:

“Será que eu tenho que jogar isso fora?”

Não necessariamente.

Na preparação que vou te ensinar hoje, primeiro fazemos uma lavagem rápida no arroz e depois deixamos os grãos 20 minutos de molho na própria água que será utilizada para o cozimento.

Depois?

Arroz e água vão juntos para a panela.

Assim nós não precisamos preparar uma “água de arroz” separada nem jogar o arroz fora.

A estrela da receita continua sendo o alimento inteiro.

E vem comigo que eu vou te explicar por que essa água fica tão bonita.

Por que a água do arroz preto fica roxa?

Essa é a parte mais interessante.

A camada externa do arroz preto possui pigmentos naturais chamados antocianinas.

Entre as principais antocianinas identificadas no arroz preto está a cianidina-3-glicosídeo. Esses compostos são solúveis em água, então uma parte da pigmentação pode passar do grão para a água durante o molho e o cozimento. (PubMed)

É por isso que você coloca aquele arroz escuro na água e, pouco a pouco, aparece uma cor arroxeada linda.

Não significa que aquela água virou um medicamento.

Significa simplesmente que componentes do próprio alimento estão passando para o líquido.

Faz sentido?

Então posso usar a mesma água do molho?

Pode, quando o objetivo é cozinhar o próprio arroz por absorção.

Eu gosto dessa ideia porque não estamos separando a água para tomar como se fosse um chá ou um “detox”.

Estamos fazendo algo muito mais simples:

utilizando aquela mesma água para terminar o preparo do alimento.

Existem inclusive métodos culinários tradicionais de preparo do arroz preto em que a água da hidratação é aproveitada no cozimento.

E isso tem uma lógica interessante porque as antocianinas são hidrossolúveis: quando a água fica arroxeada, parte desses pigmentos está naquele líquido. (PubMed Central (PMC))

Se você cozinha por absorção e aquela água termina incorporada ao preparo, ela não precisa ir embora pelo ralo.

Mas primeiro eu lavaria o arroz

Aqui tem uma diferença importante.

Eu faria assim:

primeiro uma lavagem rápida no arroz preto.

Escorre essa primeira água.

Depois acrescenta a quantidade de água que será usada no cozimento.

Aí sim deixa o arroz descansando por cerca de 20 minutos.

Ou seja:

água da lavagem → descarta.
água do molho de 20 minutos → pode virar a água do cozimento.

Bem simples.

Por que deixar o arroz preto de molho antes de cozinhar?

O arroz preto mantém sua camada externa e costuma ser mais firme que o arroz branco.

A hidratação antes do cozimento permite que o grão comece a absorver água antes mesmo de ir ao fogo.

Na prática, isso pode ajudar a deixar o cozimento mais uniforme e o grão mais macio.

Existem estudos com arroz preto utilizando períodos maiores de pré-hidratação antes do cozimento. Em um estudo que avaliou uma hora de molho antes do preparo, o pré-molho não provocou diferença significativa na retenção final das antocianinas do arroz cozido. (Laboratório Mitchell)

Então calma aí:

20 minutos não é um número mágico.

É uma estratégia prática que podemos colocar na nossa rotina de cozinha.

Se você tiver mais tempo, algumas variedades de arroz preto podem se beneficiar de uma hidratação mais longa.

Receita: como eu preparo o arroz preto

Você vai precisar de:

  • 1 xícara de arroz preto
  • água para o cozimento, conforme a orientação da embalagem e a textura desejada
  • sal e temperos naturais a gosto

1. Lave rapidamente

Coloque o arroz em uma peneira ou recipiente e faça uma lavagem rápida.

Escorra essa primeira água.

2. Acrescente a água do cozimento

Agora coloque o arroz na panela ou em um recipiente e acrescente a quantidade de água que você normalmente utilizaria para cozinhá-lo.

3. Deixe descansar por 20 minutos

Aqui está o nosso passo diferente.

Deixe o arroz descansando nessa água por aproximadamente 20 minutos.

Você vai perceber que ela começa a ganhar uma coloração arroxeada.

Olha que fantástico.

4. Não descarte essa água

Depois dos 20 minutos, não precisa escorrer novamente nessa versão da receita.

Coloque o arroz com aquela mesma água para cozinhar.

5. Cozinhe normalmente

Leve ao fogo e cozinhe até que o arroz esteja macio e a água tenha sido absorvida.

O tempo pode variar conforme a variedade do arroz preto, quantidade utilizada e método de preparo.

Depois é só temperar e servir.

E os antioxidantes do arroz preto?

Aqui está outro ponto que eu quero explicar sem complicar.

O arroz preto é estudado justamente por seu conteúdo de antocianinas e outros compostos fenólicos.

Mas isso não significa que precisamos inventar uma receita diferente para “extrair os antioxidantes”.

Na verdade, minha preferência é muito mais simples:

coma o próprio arroz.

O cozimento pode diminuir parte das antocianinas presentes inicialmente no grão, e o grau dessa perda depende do método utilizado. Estudos já demonstraram reduções desses pigmentos durante diferentes formas de cocção. (PubMed)

Só que isso não torna o alimento “sem valor”.

O alimento continua sendo alimento.

É exatamente por isso que eu prefiro ensinar você a aproveitar o arroz inteiro, em vez de criar aquela ideia de beber a água e depois não saber o que fazer com o grão.

Um detalhe importante sobre usar a mesma água

Agora eu preciso te contar o outro lado também.

O arroz pode conter arsênio inorgânico em quantidades variáveis.

A FDA informa que cozinhar arroz com bastante água e depois descartar o excesso pode reduzir aproximadamente 40% a 60% do arsênio inorgânico, dependendo do tipo de arroz. (U.S. Food and Drug Administration)

Percebe a diferença?

Se nosso objetivo é reduzir ao máximo o arsênio do arroz, então descartar a água faz mais sentido.

Se utilizamos a mesma água do molho até o final, não podemos dizer que o molho está “retirando toxinas” ou eliminando arsênio, porque aquilo que passou para a água continuará fazendo parte da preparação.

Esse ponto eu acho muito importante deixar claro.

Eu não gosto daquela história:

“Deixe o arroz 20 minutos de molho para tirar todas as toxinas.”

Não.

Não podemos prometer isso.

Aqui o molho está sendo utilizado principalmente como uma etapa culinária de hidratação do grão.

Então qual é a vantagem dessa técnica?

É a simplicidade.

Você:

lava → deixa hidratar → cozinha → come o arroz.

Sem transformar a água em suplemento.

Sem jogar o alimento fora.

Sem dizer que a água vai “desinflamar o organismo”.

E sem precisar complicar o que já é naturalmente bom.

O arroz preto pode entrar junto com:

legumes, verduras, feijão, lentilha, proteínas, sementes…

E aí começamos a montar uma alimentação variada de verdade.

Porque eu sempre digo:

não é um alimento sozinho que organiza o organismo.

É a rotina.

É o conjunto.

É o processo.

Bora viver saudável, sem complicar.


Referências

  1. Hiemori M, Koh E, Mitchell AE. Influence of cooking on anthocyanins in black rice (Oryza sativa L. japonica var. SBR). Journal of Agricultural and Food Chemistry. 2009. O estudo identificou as principais antocianinas do arroz preto e avaliou sua estabilidade durante o preparo. (PubMed)
  2. Noorlaila A. et al. Total Anthocyanin Content and Antioxidant Activities of Pigmented Black Rice Subjected to Soaking and Boiling. Jurnal Teknologi. O estudo avaliou alterações de antocianinas e atividade antioxidante após molho e cozimento. (journals.utm.my)
  3. Min B. et al. Estudos sobre os efeitos do cozimento nos compostos fenólicos e atividades biológicas do arroz preto. (PubMed Central (PMC))
  4. U.S. Food and Drug Administration. What You Can Do to Limit Exposure to Arsenic. Orientações sobre arroz, arsênio e métodos de preparo. (U.S. Food and Drug Administration)
  5. Gray PJ et al. Cooking rice in excess water reduces both arsenic and enriched vitamins in the cooked grain. Food Additives & Contaminants. 2016. (PubMed)

Aviso importante

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui orientação nutricional ou médica individualizada.

Por Vanessa Gaudiano
Nutricionista • CRN-8 16541
Fitoterapeuta Clínica | Especialista em Saúde da Mulher


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